Um dia o mundo saiu do eixo e a terra tremeu tanto que ficámos todos sem chão debaixo dos pés. Bom, não foi bem sem chão, senão caíamos; cada um ficou com um pedaço de terra que rola e acompanha o passo como uma passadeira. Vês, posso correr, saltar, até posso jogar à bola se tiver pontaria para acertar só nos pedaços de terra da equipa.
Não é mau de todo, posso ter uma, duas ou três pessoas aqui comigo. E em casa também é engraçado. Como as paredes e a mobília têm de flutuar, o meu pedaço de terra passeia-me pelos corredores, fica parado junto à cama à espera que me levante e até se eleva para eu chegar às prateleiras mais altas (uma bênção).
Naquele dia eu estava com um aperto. Sabia que não era certo, mas nestas horas o que se sabe nunca tem importância nenhuma, e enquanto o meu pedaço de terra formava degraus que desciam até à porta, a única coisa que eu conseguia pensar era em arranjar uma desculpa para ficar.
Larguei o meu saco no degrau e disse a tremer: Espero não me ter esquecido das chaves… respira miúda, respira, repeti baixinho a mim mesma. Finalmente olhei para trás.
O corpo caía-lhe pesado contra a porta, o sorriso tímido não lhe saía dos lábios e os olhos tinha-os cravados em mim.
Juro que fiz um esforço final, daqueles mesmo fortes que até deixam rugas na testa, mas era impossível. Caralho de olhar indecifrável: dizia para ficar ou para ir embora?
Desisto, pensei. É porque não tem de ser… uma pena.
Não me lembro depois como foi, sei que a minha cabeça dizia às pernas para descer até à rua e o coração gritava ao meu pedaço de terra para subir até ele.
…
Ao aproximar-se do pedaço de terra dele, o meu abrandou. Roçaram e ouvi o barulho de pedras soltas.
Como é que nunca tinha reparado? A terra dele era muito diferente, mais pequena, faltava-lhe nítidamente uma parte… calculei que um dia tivesse convidado alguém muito pesado a subir e aquele canto cedeu.
Fiquei impressionada. Nem tanto com o cenário de destruição (eram pedras soltas, raízes levantadas e terra escorregadia), mas mais pelo pouco espaço que lhe restava para ter outras pessoas ali com ele.
Estendeu-me a mão docemente.
- Tens vertigens? Perguntou.
- Não, claro que não – menti enquanto tentava escolher a zona mais segura da terra dele para subir.
- Quero ter-te aqui, mas tens de aceitar que o chão deste lado pode ceder a qualquer momento.
…
- Tens razão, tenho pavor de alturas. Acho que aí não ia ficar descansada com medo de cair. É melhor ir embora.
Comecei a descer em direcção à porta a pensar em placas tectónicas e pedaços de terra flutuantes. Nem na própria terra, nem no próprio chão podíamos confiar para chegar até alguém. Olhem para mim agora, queria estar perto e já vou tão longe outra vez.
- Sabes… tens espaço aqui no meu pedaço de terra. Podes vir, é seguro.
…
Desliguei a luz e olhei no escuro para o meu pedaço de terra a flutuar. Aguardava-me espaçoso e vazio.
” I’m a high school lover, and you’re my favourite flavor
Love is all, all my soul
You’re my playground love
Yet my hands are shaking
I feel my body remains, themes no matter, I’m on fire
On the playground, love.”