“Pouco barulho manguelas! Se quiserem eu dou-vos uma cópia do diário do governo!”
Gritou as palavras pela janela e voltou a enfiar-se no apartamento poeirento. O sofá espremido entre o armário dos bibelôs e a mesinha do chá calçada com uma lista telefónica tinha a generosa marca dos anos que lhe pesavam.
A marca do sofá era a síntese do que acreditava. Cada zona da própria retaguarda tinha naquela superfície amolgada um lugar certo. Cada milímetro assentava numa ruga, cada cova apoiava um pedaço, o mesmo pedaço – sempre. E nunca falhou, nunca se desequilibrou do assento, nunca teve dores nas costas, nunca teve incómodo algum. Por isso, sempre protegia a retaguarda. Conversava com as mesmas pessoas, comia as mesmas refeições, estendia a roupa sempre pela mesma ordem. De facto, estava tudo assim, em ordem.
Excepto quando acontecia “a situação”. Já sentada no sofá com a mão no peito a acalmar a respiração que a oprimia, tentava lembrar-se do que tinha acabado de gritar pela janela. E chorava muito com a vergonha. É que ninguém compreendia que a culpa não era dela, mas sim do velho Celestino da mercearia que lhe pegou aquilo há muitos anos atrás.
Era semana de lua nova, não que tenha grande influência, mas não deixa de ser um facto. A velha, ainda nova, foi na direcção da mercearia ainda que lhe tivessem dito: “olha que hoje o Celestino está com o tau, vê lá se te manténs no passeio”. No passeio o caraças, que a fruta tinha bom aspecto e teve de entrar para ver de perto. Ela e outra senhora.
Não haviam pêros tão viçosos, pêssegos tão rosados nem uvas tão inchadas. Um aspecto tão bom que ambas soltaram às gargalhadas a gabar as frutas. Dito e feito, do Celestino da mercearia passou a reconhecer-se apenas a bata. A cara transformou-se de tal maneira que parecia um bicho – assustador. Desatou numa descompostura tal, como nunca tinha sido vista. Reclamou, resmungou, gritou… A outra senhora caiu logo por terra. Redonda – é que há desancadas que custam engolir e algumas pessoas ficam com aquilo entalado na garganta. A velha escapou, mas levou a marca daquele ataque de mau humor – a rezinguice.
Começou por um tique nervoso. Tremia-lhe o olho esquerdo quando ouvia gargalhadas. Depois o mal foi crescendo como uma erva daninha e contaminou-a por completo.
Incapaz de conviver com o resto do mundo, vive fechada em casa com medo de explodir de raiva em público e medo que os ataques acabem com ela. Porque o veneno da resmunguice entranha-se nos ossos, verga-os e tolhe-os.
Só que os vestígios da felicidade são insistentes, furam vidros, entram por frinchas…
“Quinta da reboleira?” ahahahahah Mais uma rajada de gargalhadas.
Caiu o sobrolho, os lábios torceram-se num sorriso ácido e as mãos procuraram a caixa de ovos pousada na mesinha. “Aqueles cabrões vão engolir as gargalhadas empurradas a ovos”.
Parece que estou a vê-la, pequenina dentro do seu apartamento atafulhado. A cultivar essa rezinguice.
Cada acorde e cada gargalhada representa uma ameaça constante a um disparo de ovo.
Que esses “cabrões” (palavras da senhora) estejam vacinados contra a dita rezinguice.
Caso contrário o diário do governo entra em acção…
Obrigada, leitora desconhecida, por afugentares as aranhas da caixa de comentários!
Queira a estimada escritora saber que esta desconhecida se tornou uma leitora assídua deste espaço. E só não comenta com mais regularidade pois não se tem sentido suficientemente inspirada inspirada.
Prometo um esforço extra da minha parte.
Com os melhores cumprimentos!