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diz

“Consegues não dizer qual é?”

Esta foi a primeira pergunta que a psicanalista fez à Rita. O problema dela dividia as opiniões: – é sinceridade a mais!; – é cabecinha a menos!; – é ingenuidade!; – é sonsa!; – é uma doença.

A Rita dizia tudo aquilo que sentia.

A Rita dizia “estás mais gorda”, como quem diz passa-me o sal. Dizia que o assado de domingo da mãe estava mal temperado, “que seca”, era o que o patrão ouvia quando lhe passava trabalho.

“Fica-te mal”, “acho que estou apaixonada por ti”, “amo-te”, “Não me apetece falar contigo”. Dizia tudo no tempo errado e, quase sempre, arrependia-se.

“Doutora, o que eu quero é dar por mim um dia a dizer: Devia de lhe ter dito na cara! – suspirou – Quer que lhe diga qual é o problema?”

“Consegues não dizer qual é?”

“Acho que esta consulta é inútil, pronto.”

“Ainda agora começámos.”

“Pois, mas eu sinto que você não sabe o que está a fazer.”

“Eu ainda não falei”

“Precisamente. Eu é que devia estar calada!”

Spray

Tsssssssssssss
The spray went directly to his eyes.
Stop this instance, the man shouted, or I’ll have you arrested!
So the robber ran away
while the policeman struggled with the vile pepper spray.

Nasceu o rapaz satélite! Disse o doutor.
E enquanto a mãe escondia um grito:
- ai meu deus que horror!
O pai murmurava: – que tenha o canal do campeão europeu…
- psst ó esperto!
Disse o rapaz satélite deixando o pai boquiaberto,
… esse comando é meu!
De hoje em diante, lá em casa vai dar disney channel e não o campeón!
- cala-te pirralho, ou mudo-te para a zon.

Dois tiros certeiros fizeram o dia, a última presa estrebuchava no chão e o caçador já tinha aquela satisfação vazia, ou seja, hora de ir para casa

Ergh… hora de ir para casa!! … Pá, onde é que se meteu o ponto final?

- aqui, aqui… desculpe, longe de mim questionar a orientação da história, mas ‘tava a pensar se isto deveria terminar assim… quer dizer, podia chegar uma equipa de reanimação, nesse caso ficaria: “hora de ir para casa…”. É desnecessário fechar o episódio.

+ isto passa-se na floresta Sr. Ponto. O inem não chega lá. Acabe já com isto que eu não lhe pago horas extraordinárias pelas reticências.

- e se for uma vírgula? O caçador pode ter ainda alguma coisa a dizer sobre aquele animal. Afinal, a descrição da caça foi tão empolgante, dava para se sentir uma ligação especial, e

+ Ele mandou-lhe um tiro! Chumbo. Se houvesse alguma vírgula seria para dizer que o caçador estava agora na dúvida se comia peixe ou carne ao jantar.

- E acaba assim, então?

+ Ehhh. No lugar do cadáver pode surgir um jardim. Que tal?

- Pronto.

+ E o ponto? É que o jardim já é outra história. Primeiro… já sabe Sr…

- Ponto final, parágrafo, já sei, já sei.

.

poema sem ligação

Um dia de alta tensão,

daqueles em que nada funciona direito

Procurei à toa o carregador, a tomada…

Não encontrei nada

Liguei o botão errado e quadro ficou desfeito.

Grande questão: chamo um eléctrico?

Em vez disso, no escuro

Criei um campo electro-magnético!

a mulher invísivel

temei pascácios incrédulos

e os demais que andam a dormir

pois ainda que o caso aconteça há séculos,

imunidade ainda está para vir.

eis que uma tarde a passear,

não corria na cidade ponta de ar,

arranquei as ideias do mundo da lua

quando a vi

sorridente do outro lado da rua.

fechar os olhos era tarde demais

e praguejar, gritar ou fazer vendavais,

convenhamos que é estúpido

quando o alvo é invisível.

troçais?

pois talvez seja eu mais para o sensível,

mas a mulher que nunca me atormentava,

porque estava noutra dimensão, no fundo de um poço,

de repente

ganhou carne e osso.

Compreendeis agora palhaços anormais?!

Que pelo humor mórbido das forças astrais,

a mulher ficou com o meu corpo e o meu lugar já acessível

e eu fiquei na rua, ao calor

invisível.

spread your love

- Sabes isto que chamam por aí de amor? Pois é… em mim isso é uma febre.
(…)
- não faças essa cara, não estamos a falar de uma epidemia! É contagioso, mas…
+ Contagioso?! Agora posso ter isso em mim?
- Não sei (sorri pelo canto dos lábios), sentes alguma coisa?
+ Pára, não é altura para brincadeiras, o caso pode ser sério… E se eu não tiver anticorpos suficientes?
(…)
+ Há cura?
- Cura, cura ainda não encontraram. Podes sentir-te melhor de algumas formas. Se estiveres comigo, se acordares comigo, se eu segurar a tua mão. Sem falar no pôr-do-sol, cineminha ao domingo à tarde no shopping e essas paneleirices que te aviso já que não me sujeito; nem que estejas em estado terminal.
+ (arrepio) Eu gosto de estar contigo, mas tenho medo, prefiro não estar infectado.
- Não te preocupes, o amor costuma ter efeitos imediatos. Se ainda não sentes nada, és imune a mim. Estás salvo. E eu também.
(…)

a ouvir: spread your love – BRMC

esquema

quem meteu este gajo uncle pete? diz-me. quem é o olhinhos? Não estava ontem no gráfico e agora já está na quarta posição. Quarta! ah. eu estou nesta merda há uma semana e só vou na sexta e ele entra e já está na quarta. Não me venham com merdas. O linkx saiu de repente do esquema e agora entra este gajo com uma data de contactos? Não é o gatekeeper que está a ficar com o dinheiro deles, quem é que ficou?
O que me interessa isto uncle pete?
estou quase a chegar a gatekeeper e estou a ver que quem entrou já não me vai pagar, é de interessar, não?
Mas não penses que eu ando a dormir. Tenho uma data de contactos para meter nisto.
Quais? ora, o touch, o tiger man…. o… ah foda-se.

tenho de pensar isto melhor, ele está quase a chegar.
eles não me vão comer, ah mas não vão mesmo.

- saí do parque sem fazer barulho, à espera de dar de caras com o uncle pete e ele continuou a falar sozinho em frente ao carro.

está claro

Ouvi dois duendes dizerem

DUENDE 2.° Cuando las cosas están claras…
DUENDE 1.° El hombre se figura que no tiene necesidad de descubrirlas.
DUENDE 2.° Y se van a las cosas turbias para descubrir en ellas secretos que ya sabía.

Vês agora como é claro meu querido? Como no perlímplin, eu sou a minha alma e tu és o teu corpo.

Cada um em seu lado.

(Federico García Lorca
Amor de don Perlimplín con Belisa en su jardín
Aleluya erótica en cuatro cuadros)

Um dia o mundo saiu do eixo e a terra tremeu tanto que ficámos todos sem chão debaixo dos pés. Bom, não foi bem sem chão, senão caíamos; cada um ficou com um pedaço de terra que rola e acompanha o passo como uma passadeira. Vês, posso correr, saltar, até posso jogar à bola se tiver pontaria para acertar só nos pedaços de terra da equipa.
Não é mau de todo, posso ter uma, duas ou três pessoas aqui comigo. E em casa também é engraçado. Como as paredes e a mobília têm de flutuar, o meu pedaço de terra passeia-me pelos corredores, fica parado junto à cama à espera que me levante e até se eleva para eu chegar às prateleiras mais altas (uma bênção).
Naquele dia eu estava com um aperto. Sabia que não era certo, mas nestas horas o que se sabe nunca tem importância nenhuma, e enquanto o meu pedaço de terra formava degraus que desciam até à porta, a única coisa que eu conseguia pensar era em arranjar uma desculpa para ficar.
Larguei o meu saco no degrau e disse a tremer: Espero não me ter esquecido das chaves… respira miúda, respira, repeti baixinho a mim mesma. Finalmente olhei para trás.
O corpo caía-lhe pesado contra a porta, o sorriso tímido não lhe saía dos lábios e os olhos tinha-os cravados em mim.
Juro que fiz um esforço final, daqueles mesmo fortes que até deixam rugas na testa, mas era impossível. Caralho de olhar indecifrável: dizia para ficar ou para ir embora?
Desisto, pensei. É porque não tem de ser… uma pena.
Não me lembro depois como foi, sei que a minha cabeça dizia às pernas para descer até à rua e o coração gritava ao meu pedaço de terra para subir até ele.

Ao aproximar-se do pedaço de terra dele, o meu abrandou. Roçaram e ouvi o barulho de pedras soltas.
Como é que nunca tinha reparado? A terra dele era muito diferente, mais pequena, faltava-lhe nítidamente uma parte… calculei que um dia tivesse convidado alguém muito pesado a subir e aquele canto cedeu.
Fiquei impressionada. Nem tanto com o cenário de destruição (eram pedras soltas, raízes levantadas e terra escorregadia), mas mais pelo pouco espaço que lhe restava para ter outras pessoas ali com ele.
Estendeu-me a mão docemente.

- Tens vertigens? Perguntou.

- Não, claro que não – menti enquanto tentava escolher a zona mais segura da terra dele para subir.

- Quero ter-te aqui, mas tens de aceitar que o chão deste lado pode ceder a qualquer momento.

- Tens razão, tenho pavor de alturas. Acho que aí não ia ficar descansada com medo de cair. É melhor ir embora.
Comecei a descer em direcção à porta a pensar em placas tectónicas e pedaços de terra flutuantes. Nem na própria terra, nem no próprio chão podíamos confiar para chegar até alguém. Olhem para mim agora, queria estar perto e já vou tão longe outra vez.

- Sabes… tens espaço aqui no meu pedaço de terra. Podes vir, é seguro.

Desliguei a luz e olhei no escuro para o meu pedaço de terra a flutuar. Aguardava-me espaçoso e vazio.

” I’m a high school lover, and you’re my favourite flavor
Love is all, all my soul
You’re my playground love
Yet my hands are shaking
I feel my body remains, themes no matter, I’m on fire
On the playground, love.”

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